Desonra, J. M. Coetzee.

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Desonra, escrito por J. M. Coetzee
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 256
ISBN: 978-85-359-0080-4
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Sucesso de público e crítica – foi publicado em mais de vinte países e ganhou o Booker Prize, o mais importante prêmio literário da Inglaterra -, Desonra é considerado o melhor romance de J. M. Coetzee. O livro conta a história de David Lurie, um homem que cai em desgraça. Lurie é um professor de literatura que não sabe como conciliar sua formação humanista, seu desejo amoroso e as normas politicamente corretas da universidade onde dá aula. Mesmo sabendo do perigo, ele tem um caso com uma aluna. Acusado de abuso, é expulso da universidade e viaja para passar uns dias na propriedade rural da filha, Lucy.
No campo, esse homem atormentado toma contato com a brutalidade e o ressentimento da África do Sul pós-apartheid. Com personagens vivos, com um ritmo narrativo que magnetiza o leitor, Desonra investiga as relações entre as classes, os sexos, as raças, tratando dos choques entre um passado de exploração e um presente de acerto de contas, entre uma cultura humanista e uma situação social explosiva.

Resenha

John Maxwell Coetzee (a pronúncia correta é “coutzía”) é um professor de literatura e linguistica, e escritor sul africano que atualmente mora na Austrália, onde ainda leciona. É um homem recluso, pouco afeto a tietagens e tem o costume de não aparecer para receber os prêmios que alcança com suas obras. Desonra (em inglês foi lançado como Disgrace) é um dos livros mais importante da carreira do escritor, que recebeu o pêmio The Man Booker Prize em 1999, ano de seu lançamento.

Desonra é um romance escrito originalmente em língua inglesa e conta a história ambientada na África do Sul pós-Apartheid do professor  de literatura David Lurie, um homem de meia idade solitário cujo relacionamento mais próximo mantém com uma prostituta que, por alguns acontecimentos, acaba por  afastar-se dele.

“No campo do sexo, seu temperamento, embora intenso, nunca foi passional. Se tivesse de escolher um animal totem, seria a cobra. A relação sexual entre Soraya e ele deve ser, imagina, comouma cópula de cobras: prolongada, absorvente, mas um tanto abstrata, seca, mesmo no ponto mais quente”.

Diante da solidão ainda mais proeminente em sua vida, Lurie começa um relacionamento um tanto quanto estranho com uma de suas alunas, e não enxerga o quão abusivo esse relacionamento é. A forma como ele aborda a aluna e conduz toda a situação culmina com sua expulsão da faculdade onde leciona.

Assim, ele vai para o interior do país viver com sua filha Lucy, que não vê há alguns anos. Lucy é homoafetiva e recebe ajuda de alguns vizinhos para tocar os negócios, pois sonha em viver de suas produções. Lurie, então, encontra uma realidade muito diferente da que está habituado e passa a conflitar suas ideias com a dos habitantes locais.

Alguns acontecimentos traumatizantes levam Lurie a enfrentar seus próprios preconceitos e a aceitar posicionamentos muito diferentes dos seus, o que leva a uma auto reflexão e auto crítica muito profundas, que culminam em mudança de condição.

O livro traz temas pesados como assédio, machismo, estupro e violência contra animais, e trata esses assuntos de forma dura e direta.

Minhas impressões.

Eu amei a história, que me impactou desde as primeiras frases. O texto é cheio de reflexões do Lurie, que nos levam a refletir junto com ele e a descobrir a personagem pouco a pouco. Eu comecei o livro com uma ideia totalmente diferente, e, por vezes, me peguei tentando ajudar o Lurie mentalmente, tentando colocar palavras  que ele não conseguia dizer. O livro é o tempo todo assim: um nó na garganta de quem tem muito a dizer e não consegue se expressar de forma que o interlocutor entenda, uma verdadeira lição de linguística, de exemplos de como não se deve portar em meio a receptores que não tem capacidade de entender a mensagem do emissor que, por sua vez, não consegue alcançar seus recptores.

“Sua opinião, que ele não ventila, é que a origem da fala está no canto, e as origens do canto na necessidade de preencher com som o vazio grande demais da alma humana”.

Lurie também é confrontado o tempo todo com seu lugar no mundo depois que alcança a idade madura, os conflitos próprios de quem está chegando à terceira idade e não aceita esse destino.

“Será que podem ser condenados por se agarrar até as últimas ao seu lugar no doce banquete dos sentidos?”

Não que Lurie se porte como um adolescente, ao contrário, ele apenas não se reconhece como as limitações de um homem de meia idade e não as aceita, e isso gera muitos obstáculos para que ele encontre satisfação pessoal.

“Depois de uma certa idade a gente simplesmente não é mais atraente, e ponto final. é se conformar e viver o resto da vida. Cumprir o mandato”.

Mas não espere um desfecho inesperado, cheio de grandes acontecimentos e momentos marcantes. O livro termina do jeito que começou: uma história contada de forma seca, crua e realista. Enquanto,terminava de ler as últimas linhas do livro, mentalmente e, ao mesmo tempo, eu pensava que não ia dar tempo de acabar, que ainda teria muita coisa para acontecer, que aquele final era indigno, era quase cruel. E acabou. Como as palavras do Lurie não atingiam seus interlocutores como ele esperava, suas palavras cessaram e ele aceitou sua condição de homem em desgraça.

Gostou dessa resenha? Já leu ou tem vontade de ler o livro? Conte-me tudo nos comentários, eu adoro trocar ideias com vocês!

 

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16 comentários em “Desonra, J. M. Coetzee.

  1. Uau!!! Que história forte gente! Adorei as fotos que você colocou e a sua resenha sincera e cheia de emoção. Gostei muito da informação sobre a pronúncia do sobrenome do autor, de quem tentei lembrar, mas minha memória me traiu. Mesmo sendo um livro premiado, não me lembrei dele mesmo!
    Adoro livros com esse nível de polêmica, como violência, machismo, assédio e outros aspectos! Principalmente quando eles mexem com a gente como mexeram com você, a ponto de você tentar mudar a cabeça do personagem!
    Vai entrar para a fila de leitura com certeza!
    Beijos!

    Karla Samira
    http://pacoteliterario.blogspot.com.br/

    Curtido por 1 pessoa

  2. Gostei muito do livro, isso que você comentou de ser uma história contada de maneira direta e crua me chamou a atenção. Não gosto de enrolações, gosta de narrativas que vão direto ao ponto, e esse parece ser o que acontece aqui. A parte gráfica tá um primor.

    ;D
    Nelmaliana Oliveira

    Curtido por 1 pessoa

  3. Olá! Não conhecia o livro e fiquei muito interessada em ler. Gosto de enredos fortes,reflexivos. Lendo sua resenha deu para perceber que tem uma carga dramática intensa, fiquei curiosa para saber o desenrolar da relação dele com a filha, sua resenha está ótima! beijos!

    Curtido por 1 pessoa

  4. Um daqueles livros que já te ganha na sinopse fácil hahahha
    E a resenha só aumentou a curiosidade! 🙂
    Pondo a lista.

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  5. Acabei de ler o livro e vi sua resenha…. gostei muito!! O final do livro dá aquele gostinho de ‘quero mais’ na medida certa…. uma indignação diante das escolhas dele e de Lucy e como as coisas foram ficando demasiadamente complicadas! Cruel mas além de tudo excelente

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