Resenha: Triste fim de Policarpo Quaresma

Triste fim de Policarpo Quaresma, escrito por Lima Barreto.

Editora: Saraiva

Páginas: 240

ISBN: 978.85.209.2727-4

Coleção Saraiva de Bolso.

Descrição:

Publicado inicialmente em folhetins no ano de 1911, “Triste fim de Policarpo Quaresma” é um romance do período do Pré-Modernismo brasileiro. Por meio da vida tragicômica do major Quaresma, um nacionalista fanático, ingênuo e idealista, Lima Barreto revela as estruturas sociais e políticas do Brasil da Primeira República, enfocando os fatos históricos do governo de Floriano Peixoto.

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Resenha

O livro trata da história do major Policarpo Quaresma, um funcionário público que na verdade não era major de patente, sendo esta alcunha apenas um apelido recebido de seus colegas. Ele era um nacionalista, um homem íntegro, correto e de uma honestidade que beirava à inocência, pois acreditava nos valores do Brasil como nação acima de qualquer outra coisa.

Era um homem estudioso, que quando se interessava por um assunto pesquisava em diversos livros, até conseguir total domínio sobre aquilo. Por conta disso, descobriu o tupi guarani, língua nativa dos índios, e cismou que essa deveria ser a língua falada no Brasil, por conta de nossos ancestrais silvícolas. Chegou ao ponto de, no auge de sua obsessão pelos costumes nativos, incorporar alguns costumes dos índios em suas próprias relações sociais, tais como receber visitas com um grande pranto. Policarpo atinge o ápice da loucura quando escreve um memorando exaltado sugerindo que o Brasil adotasse o tupi guarani como língua oficial e, assim, foi exposto ao ridículo perante a sociedade e acabou por se internar num manicômio para tratar sua cisma que o fazia parecer louco perante a sociedade brasileira ultra conservadora do final do século XIX.

Saindo do hospício, Policarpo vai para o campo com sua irmã, com quem sempre viveu, pois jamais casou-se ou se envolveu intimamente com mulher alguma. Policarpo já não fala de seus ideais nacionalista mas continua sonhador, acreditando que não há melhor terra que o Brasil, e passa a nutrir o sonho de viver da produção de sua terra. Novamente nosso herói é mal interpretado e atrai os olhares nada amistosos dos coronéis e políticos da região, que o enxergam como um possível rival.

Infelizmente a terra não corresponde às expectativas de Policarpo, que enfrenta pragas na lavoura e  se vê ameaçado, recomeçando novas plantações sem obter êxito. Até que um ataque de formigas saúvas destrói todo o seu trabalho e o obriga a desistir da vida de agricultor.

Nesta época, concomitantemente às desilusões agrárias de Policarpo, eclode a guerra Revolta da Armada, na qual a Marinha do Brasil, apoiada pela oposição monarquista à recém instalação da República, se volta contra o governo de Floriano Peixoto, e Policarpo se apresenta para lutar pelo Tirano.

Durante a guerra Policarpo novamente se vê desiludido com algumas questões governista e, após vitória do governo, Policarpo é preso como traidor apenas por se opor ao tratamento desumano dispensado aos prisioneiros de guerra.

 

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Minhas Impressões:

Comprei essa edição de bolso da Saraiva, mais para cumprir minha meta de livros nacionais para ajudar a entender a política atual e a sociedade brasileira, como mostrei aqui neste post. Fui surpreendida positivamente com essa história, que tocou-me profundamente por causa de minhas antigas aspirações profissionais de advogada que lutava por justiça e pelo cumprimento da lei. #fail.

Como se pode ver, o livro traz três fases muito bem delimitadas, sendo primeiro traçado um perfil completo da sociedade da época, onde Policarpo aparece inserido mas não adaptado, pois percebe-se um homem deslocado do convívio com seus pares, por não se encaixar nos padrões da época. Senti isso no fato de ele ser solteiro e viver com a irmã, enquanto toda a sociedade pregava o casamento; também pela inadequação às regras sociais, como por exemplo, “cidadãos de bem” não poderem misturar-se com artistas, pois Policarpo foi hostilizado por tomar aulas de violão com o amigo Ricardo Coração dos Outros, a fim de aprender a tocar modinha. Tal prática era tida como prática de vagabundos, e Policarpo recebeu inúmeras críticas por receber em sua casa um violeiro.

– É bom pensar, sonhar consola.

-Consola, talvez, mas faz-nos também diferentes dos outros, cava abismos entre os homens.

Na segunda fase da vida de Policarpo, temos um homem recém saído do hospício devido aos seus devaneios patrióticos, mais decepcionado com a sociedade e que se retira para o campo ainda mantendo a fé na sua pátria tão adorada. Policarpo, aqui, mantém-se fora das questões políticas, tentando não se envolver com problemas da região, mas ao mesmo tempo fornece ajuda para os moradores do lugar, o que leva as autoridades a desconfiarem de suas intenções, gerando um clima de tensão na história.

O trem apitou e ele demorou-se a vê-lo chegar. É uma emoção especial de quem mora longe, essa de ver chegar os meios de transporte que nos põem em comunicação com o resto do mundo. Há uma mescla de medo e de alegria. Ao mesmo tempo em que se pensa em boas-novas, pensam-se também más. A alternativa angustia…

Abaixo uma das falas que mais tocaram meu coração, mais atuais, que mais retratam a triste realidade do povo brasileiro. Achei impressionante que mesmo dois séculos depois recebemos o mesmo tratamento de nossos governantes:

-Terra não é nossa…E “frumiga”?…Nós não “tem” ferramenta…isso é bom para italiano ou “alemão”, que governo dá tudo…Governo não gosta de nós….

Na terceira fase Policarpo continua fiel a seus princípios e crente em seus deveres patrióticos, assim, entrega-se ao serviço militar onde finalmente alcança a patente de major por nomeação. Contudo, Policarpo desilude-se de vez e entra num estado de auto crítica e análise profundos, que tornam-se o ponto central de seu triste fim.

 

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Termino com o momento de epifania de Policarpo, onde o narrador o vê em desgraça e tem a compreensão do todo; momento em que, finalmente, Policarpo cai em si e se desilude de suas românticas ambições patrióticas:

A pátria que quisera ter era um mito; era um fantasma criado por ele no silêncio do seu gabinete. Nem a física, nem a moral, nem a intelectual, nem a política que julgava existir havia, a que existia de fato era a do tenente Antonino, a do doutor Campos, a do homem do Itamaraty.

 

E aí? gostaram da resenha? Deixe suas impressões nos comentários, por favor!

Beijinhos.

 

 

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4 comentários em “Resenha: Triste fim de Policarpo Quaresma

  1. Chris, esse livro também tocou meu coração quando li. Tive que lê-lo em dois momentos diferentes, porque na primeira vez a leitura não fluiu. O livro traz questões tão atuais e nos faz refletir sobre isso tudo. Até hoje sinto saudades do major Quaresma.. Amei a resenha, me fez reviver diversos momentos da leitura. Recomendo para todos esse livro!
    Beijocas

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