Homens de Vilarinho

Foi um grande acontecimento em Vilarinho, quando na Senhora da Agonia, à missa, o padre João leu os nomes dos mordomos da próxima festa. É que, à cabeça do rol, vinha o Firmo, e todos esperavam tudo menos isso.
– O Firmo?! – não se conteve, no silêncio da igreja, o Antônio Puga.
– Psiu!… – sibilou, dos lados da pia benta, o sacristão, que andava às esmolas.
E o caso só à saída foi comentado como merecia.
– O Firmo?! Mas então o Firmo, daqui a um ano… – e o Puga nem era capaz de levar o raciocínio ao fim.
– Fica. Desta vez fica… – garantiu a Margarida, que bebia do fino. – O padre João tantas lhe disse…
A assistência ouvia maravilhada. O Firmo de pedra e cal em Vilarinho! O mundo sempre dá muita volta!
A notícia tinha realmente que se lhe dissesse. Há muito anos já que o Firmo desorientava Vilarinho. Desde que viera de Amarante da artilharia, e embarcara, nunca mais a seu respeito se soube a quantas se andava. Nem a própria mulher. Quando lhe perguntavam pelo homem, o que fazia, se voltava, se gozava saúde, respondia, já resignada:
– O meu Firmo?! Eu sei lá do meu Firmo no Brasil, na América, na Argentina, os que o conheciam estavam na mesma. Sempre a variar de terra, sempre a mudar de emprego, e às duas por três a oferecer os préstimos para Portugal.
– Oh! oh! – São meia dúzia de dias. Daqui a nada estou cá. É só o tempo de o navio chegar, esperar que eu faça um filho à patroa, e levantar ferro…
Dito e feito. Daí a pouco regressava com a mesma cara. De tal maneira, que já todos se riam. Dera em droga, não havia que ver. Só mesmo o padre João, cabeçudo, é que podia ter ainda fé naquele valdevinos, e continuar junto dele o sermão deixado a meio da última vez. O padre era o pároco de Vilarinho. E sempre que Firmo vinha à terra e acordava da primeira noite dormida com a mulher, lá estava ele à entrada da porta com a sua batina rota e o seu cachaço de cavador.
– Dás licença, Firmo?
– Faça favor de entrar, senhor padre João. – Então tu não terás mais juízo, homem de Deus! Tu não verás que tens aqui um rebanho de filhos?!
Firmo baixava a cabeça diante daquela voz amiga e repreensiva. Nem se defendia. Aceitava cada censura como o golpe dum látego purificador. Mas passados dias, quando a Silvana começava a pedir azeitonas às vizinhas, ia dizendo: _ És tu com desejos de azeitonas e eu com desejos de mundo…
– Ah! Firmo, que sorte a minha! Valia de bem o gemido da infeliz! Quanto mais chorava, mais ele se enfrenisava na partida. Empenhava uma terra, vendia-lhe o cordão se preciso fosse, recorria em último caso ao próprio padre João, mas abalava.
– Grandes terras, ti Guilhermino!
– Não há dúvida, Firmo… Não há dúvida… Os lucros que tens tirado delas é que são fracos… – respondia melancolicamente o velho, quando o Firmo, a caminho do comboio, enchia a boca com a Califórnia.
– Não tem calhado… Que ele também para que é que o dinheiro presta?!
– Homessa! – É o que lhe digo. Desde que uma pessoa coma e beba…
– E a mulher e os filhos?
– A mulher e os filhos cá vão vivendo… E Vilarinho desanimava.
– Coisa assim, como ele se pôs! E ainda se fosse de gente doutra condição, vá lá com mil demónios! Agora quem lhe conheceu o pai, como eu, um homem sério, zelador do que lhe pertencia, amigo da família, sempre agarrado à enxada… Que ele não é mau. Mas fazer-se um tragamundos daquela maneira! – gemia o abade, quando a Silvana lhe ia pagar a côngrua. – Acredita que tenho uma paixão, que nem fazes ideia!
O padre era a própria seiva de Vilarinho. Tão agarrado à terra que costumava dizer aos colegas:
– Eu, fora cá da minha freguesia, nem latim sei.
Os outros riam-se e davam-lhe palmadinhas intencionais no costado largo.
– Ora, ora, padre João! Esquece-se do latim, esqueceu mas lembra-se do português. Que o diga quem pode…
Aludiam risonhamente à conversa que tivera na Vila com o novo bispo, quando foi chamado à pedra. O prelado, muito severo, com ar de quem ia salvar o mundo, depois de lhe estender o anel e de lhe indicar uma cadeira, pôs-se para ali a alanzoar. Que o incomodara para tratar com ele dum caso grave de consciência e de disciplina. Que sabia que Sua Reverência vivia amancebado e tinha prole. Que tomara conta da diocese há pouco tempo e que não desejava iniciar a pastoreação com actos de violência. Mas que, por outro lado, não podia consentir desmandos a nenhum membro do reverendíssimo clero. Por conseguinte, ou abandonava Sua Reverência o concubinato ou se via obrigado a aplicar-lhe os castigos disciplinares.
O réu não esteve com meias medidas. – Olhe!, senhor Bispo, cá por cima são estes usos. Padre sim, padre não, faz o mesmo. Tenha a certeza. O que são é mais finos do que eu. As fêmeas chamam-lhes criadas; e aos filhos, afilhados, Ora eu cá sou pão pão, queijo queijo. Não nego. Para quê? A mulher é minha, nunca foi doutro, gosto dela e não a largo; os filhos tenho já cinco, quero criá-los e ver se lhes deixo alguma coisa. De maneira que faça o senhor Bispo o que entender.
A resposta ficou célebre. E os colegas, sempre que vinha a propósito, davam-lhe o beliscão.
Ria-se com o seu riso aberto. E, acabada a missa cantada, o oficio ou lá o que era, trepava para o lombo da mula, cheio de saudades das suas leiras e das almas irmãs que governava.
Destas, só uma lhe fazia cabelos brancos: o Firmo. O diabo saíra ave de arribação. E para quem como ele mergulhava as raízes no chão de Vilarinho, uma realidade assim era um sofrimento.
– Homem, mas tu, afinal, quando te resolves a ser um pai de família e a ter vergonha na cara? – acabou por perguntar ao Firmo, já sem mais paciência.
– Há-de ser um dia. Prometo-lhe que há-de ser um dia!
E quando pela sexta vez o padre o acordou do sono com a mulher, na véspera da Senhora da Agonia, o Firmo sossegou-lhe o coração.
– É desta feita. Na Quaresma conte com mais um pecador para a desobriga. Agora tem-me o resto da vida, caseiro como uma galinha…
Padre João sentiu que um grande peso lhe saía dos ombros. Até que enfim!
– Dás-me a tua palavra?
– Estou-lhe a falar a sério, pode crer! Hei-de fazer tudo para isso. já iam sendo horas…
A promessa tinha uma solidez de testamento. Contudo, pelo sim, pelo não, no dia seguinte, à missa, o padre resolveu amarrar o valdevinos à argola, pondo-o, com grande espanto de Vilarinho, no principio da lista dos mordomos da festa do ano que vinha.
– Será que ele desta vez fica mesmo? – insistia o Puga na venda do Trauliteiro.
– Parece que sim. O padre João lá o convenceu…
– Custa-me a acreditar.
– Não tem que ver: está ou não está mudado? Cava ou não cava o dia inteiro, como nós ?
– Realmente… E até os mais renitentes foram cedendo terreno. A própria mulher, que nos primeiros dias andava abismada com aquela resolução, enchia agora os olhos de paz ao vê-lo a tratar do estrume para as próximas sementeiras, e de tempos a tempos a lembrar que era preciso não esquecer de tirar a esmola para a festa, e que a respeito de arraial a coisa havia de ser falada.
O padre, esse, andava de coração em aleluia. A terra de lameiro de que era feito, grossa, funda, quente, só compreendia as pessoas plantadas ali. Por isso, desde que Firmo parecia aclimatado a Vilarinho, até a vida lhe sabia melhor.
– Com que então desta vez sempre ficas por cá?! – foi perguntando o Puga, pela mansa, quando encontrou o Firmo a jeito.
– É como dizes. O bom filho à casa torna… E Vilarinho assentou de vez que o réprobo, afinal, ganhara juízo, tomara nas mãos macias as rédeas duras da casa e dera ao demo o que é do demo – o mundo.
Nos Reis, para aumentar a receita destinada à romaria, fez-se um peditório. E o Firmo, que tocava violão, puxou ali pelas seis cordas corno um valente.
– Ora vê lá tu se não e melhor a vida que agora levas do que andar como um maltês por lá! – dizia-lhe o padre João, como a varrer-lhe do pensamento qualquer resto de maluquice.
– Na verdade…
– Não há que ver: onde encontras tu terras como esta? Bom pão, bom vinho, bons ares, e em nossa casa, ao pé da mulher e dos filhos!
O mundo dera a Firmo luzes para além das fragas nativas. Por isso tinha olhos para ver o padre em plena grandeza. Um castanheiro. Tal e qual um castanheiro, redondo, maciço, frondoso. De tal modo fincado onde nascera, que não havia forças que o fizessem mudar. Só a morte. Ele, Firmo, filho de cavadores, cavador até aos vinte, que se casara, que não tinha estudos, – sem nenhum apego à terra, incapaz de se deixar penetrar da verdade dos tojos e das leiras; e aquele homem letrado, que recebera ordens, que prometera dar-se todo a quem proclamara que o seu reino não era deste mundo, – ali com mulher e filhos, cheio do amor deles, agarrado às verças como os juncos às nascentes! As razões que apresentava eram sempre as mesmas. Tantas vezes as ouvira que já nem lhes ligava sentido. Mas agora as palavras de ontem, de antes de ontem, de há vinte anos, embora igualmente incapazes de o vencer – pois sabia que não o movera nenhum dos argumentos invocados -, entravam-lhe pelos ouvidos dentro com outra significação. Mandavam-no curvar-se de pura admiração diante de uma vida sem fendas, inteira como um rochedo. Que bicho! Nem o próprio bispo pudera com ele. Metera a viola no saco e deixara correr. O bloco de pedra talvez estivesse errado em sítios onde já não tivesse valor o tamanho do natural. Em Vilarinho, metia respeito.
– É assim. Eu vou à Vila, ando por lá a dar as voltas precisas, e às duas por três tenho fome. Entro na Gaitas e como uma malga de tripas. Pois acredita que nem as tripas me sabem. Há lá nada como a nossa casa!
– São feitios, senhor padre João… – tentou, em todo o caso, o Firmo. – A vida…
– Quais feitios, qual vida! Firmo calou-se. O amor daquele homem à terra era tão absoluto como o seu próprio amor à vastidão do mundo. Para quê discutir?
– E de festa, que tal vamos? Vê lá isso! Não me deixes ficar mal…
– Está justa a música velha de Constantim, encomendámos o fogo em Cabeda e os saiais são de Sabrosa. Pregador, o senhor padre João dirá…
Nem parecia o mesmo. Como um homem se modificava! Lá diz o ditado: Infeliz pássaro que nasce em ruim ninho. Tanto monta correr, como saltar: as asas puxam-no sempre para onde aprendeu a voar. Pusessem os olhos naquele exemplo.
Mas na véspera da Senhora da Agonia, roído não se sabe por que melancólica inquietação, Firmo, que lutara como um herói durante um ano para se aguentar ali, bateu à porta da residência.
– Dá licença, senhor padre João?
– Entra, Firmo. Alguma novidade?
– Nada de importância…
No rosto largo do abade o sangue correu mais tinto e mais alegre.
– Bem. Isso é que eu gosto de ouvir.
Sem palavras para desiludir aquela confiança, peado, o desertor começou a gaguejar:
– Pois é verdade… Afinal…
O padre, então, olhou-o com a sua penetração profissional de confessor:
– Desembucha!
E Firmo escancarou-lhe a alma:
– Não posso mais, senhor padre João. Embarco amanhã e venho dizer-lhe adeus.
Miguel Torga, Contos da Montanha.
MIGUEL TORGA
Miguel Torga, por Carlos Botelho ou Bottelho, pintor e escultor português.

 

Miguel Torga é o pseudônimo de Adolfo Correia da Rocha, (1907 — 1995) um dos mais influentes poetas e escritores portugueses do século XX. O autor destacou-se como poeta, contista e memorialista, e escreveu também romances, peças de teatro e ensaios.
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