Amizade é também amor, Fabrício Carpinejar

 

  • Capa comum: 288 páginas
  • Editora: Bertrand (24 de março de 2017)
  • Idioma: Português
  • ISBN-13: 978-8528621921
  • Dimensões do produto: 20,6 x 13,2 x 2 cm
  • Peso do produto: 299 g

Sinopse: Em seu novo livro de crônicas, Carpinejar não fala de amor, mas de amizade. São 122 textos ao longo de mais de 200 páginas que combinam reflexões de companheirismo e humor do cotidiano com lembranças da infância e um ou outro conselho sobre convivência. “Os amigos são para toda a vida, ainda que não estejam conosco a vida inteira. Amigo é destino, amigo é vocação”, escreve.

Sabe aquele livro que parece um abraço? às vezes um pouco mais apertado, outras mais confortável… Assim são as crônicas que fazem parte dessa coleção de histórias sobre amizade, amor e um pouquinho de reflexão sobre nossas próprias atitudes cotidianas.

O que bate de frente é a agressão silenciosa. Quem esconde o punho na hipocrisia, quem finge generosidade no beijo e cospe sua agressividade em segredo.

É um livro com muitas pílulas de sabedoria, que pode funcionar como um excelente livro de cabeceira, um livro para ser degustado aos poucos, para ser refletido.

Quem cobra perde a razão, essa é a parte triste do amor.

Utilizando de um pouquinho de teoria literária, crônica é um gênero literário autônomo, formado por uma textualidade híbrida entre o jornalismo e a literatura; que possui uma curta extensão, como se fosse um texto inacabado, e fazendo uso de uma linguagem oral muito familiar ao leitor, com forte presença da subjetividade do autor, flexibilidade e irregularidade temática.

Encontro da firma não é lazer, e sim hora-extra no final de semana e adicional noturno. Só os estagiários não entenderam isso e brindam ao futuro, ingenuamente alegres, com seus copos de plástico.

E nisso as crônicas deste livro preenchem todos esses requisitos de forma muito didática, porque o autor imprime suas vivências sem fazer disso uma autobiografia camuflada, mas colocando aqui e ali uma pitada do seu bom humor e de sua visão de mundo, ao mesmo tempo em que permite ao leitor fazer suas próprias reflexões e caminhar por suas páginas de forma totalmente independente. O autor não força qualquer opinião, conta alguns “causos” que tem o amor e a amizade como pano de fundo, e faz isso de forma leve em sua retórica ao mesmo tempo em que é muito profundo em significado.

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Fabrício Carpinejar nasceu em Caxias do Sul em 23/10/1972. É poeta, jornalista, diplomado em jornalismo e mestre em literatura brasileira e já recebeu diversas premiações por suas obras.

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A maldição de Stalin, Robert Gellately

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  • Capa comum: 560 páginas
  • Editora: Record (27 de janeiro de 2017)
  • Idioma: Português
  • ISBN-10: 8501403784
  • ISBN-13: 978-8501403780
  • Dimensões do produto: 22,6 x 15,2 x 3,6 cm
  • Peso do produto: 739 g

As origens da influência internacional de um dos ditadores mais temidos do mundo.
Nos anos 1930, já tendo se tornado em tudo um ditador, Stalin empregava o terror como método de governo, justificando-o como maneira de preservar a revolução dos ataques de seus inimigos internos e externos. Ao mesmo tempo, fomentava um culto à liderança que o transformou em uma espécie de deus, a inspirar ativistas e simpatizantes ao redor do mundo. Com base em numerosos documentos originais russos e outras fontes do Leste Europeu, liberados após o fim da União Soviética, além de muitos outros documentos alemães, americanos e ingleses, o historiador best-seller Robert Gellately delineia as origens da crescente influência internacional do tirano, que se inicia nos primeiros dias da Segunda Guerra Mundial e permanece mesmo após sua morte, em 1953. O autor ainda examina o papel central desempenhado por Stalin – com consciência estratégica – no trabalho de implementar o comunismo na Europa e em todo o mundo, de maneira que, ainda hoje, muitos milhões de pessoas aguentam nos ombros seu legado – ou sua maldição.

O autor canadense é professor da Universidade Estadual da Flórida, especialista na Alemanha Nazista, e utilizou fontes da Alemanha, Grã-Bretanha, especialmente dos EUA ,e algumas soviéticas, cedidas após o término da Guerra Fria. Em sua obra, defende que Stalin foi o grande responsável pelo início e continuidade da Guerra Fria, e não os EUA, como a maioria entende. O autor não admite nem mesmo uma culpa conjunta entre as duas potências, o que já traz uma grande problemática para a obra.

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O livro traz centenas de referências bibliográficas em sua parte final (notas), o que traz um certo peso à obra, mas confesso que não pesquisei sobre elas. É dividido em três partes: a primeira traz o desenvolvimento e estabelecimento da União Soviética e da Segunda Guerra Mundial. a parte dois contém um compêndio do pós-guerra, contando como se deu a negociação entre as nações, e a parte três que se dedica à Guerra Fria, falando do regime socialista em diversos países da Europa e Ásia.

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Essa última parte contém bastante indicação bibliográfica.

Como curiosidade, o termo “Maldição” utilizado pelo autor se refere à sua análise sobre o pós guerra, quando Stalin aproveitou-se do contexto sócio-econômico para estender sua zona de atuação, juntamente com práticas de censura e repressão. O autor também explica que essa maldição significa a dificuldade que os países ligados ao conjunto soviético tiveram para tentar melhorar sua economia, tudo por culpa única e exclusiva de Stalin, o que não deixa de ser uma opinião tendenciosa, que desperta muitos questionamentos.

Na mesma linha de raciocínio, Gellately denomina Stalinização ao estilo repressor de expansão soviética ao mesmo tempo em que censura os EUA, que, na sua visão, ficaram inertes frente à expansão comunista, mas, em contrapartida, ovaciona a interferência americana na Coreia e aceita que todo o quadro histórico do pós guerra auxiliou as ações stalinistas, tendo em vista a pressão que o povo americano fez para o retorno dos soldados à sua nação, enquanto a Grã-Bretanha encontrava-se quebrada economicamente.

Outra problemática encontrada no livro é a opinião pessoal do autor quanto ao caráter de Stalin. Ele não admite a possibilidade de uma psicopatia ou qualquer transtorno de personalidade, mas acredita que toda violência cometida era fruto da própria ideologia comunista, ou seja, foi fruto de como Stalin absorveu  e interpretou a doutrina Marxista, deixando subentendido que a doutrina marxista propaga a violência como forma de dominação. Essa percepção deixa de fazer sentido se utilizarmos a mesma premissa para a análise de todo o mal causado pelo nazismo de Hitler, um ditador nacionalista de extrema direita.

Em Teerã, Stalin soou como se confiasse em seus aliados e estivesse ávido por cooperação. Mas seu desprezo por eles não tinha limites. O histórico está repleto de exemplos, como um de março de 1944, quando falou para visitantes comunistas Iuguslavos. Disse-lhes que não se enganassem em relação às suas relações cordiais com Roosevelt e Churchill, por ele equiparados a batedores de carteira capitalistas. Aconselhou seus convidados a não  “amedrontarem” os aliados ocidentais, com isso querendo dizer “evitar qualquer coisa que pudesse alarmá-los a ponto de pensarem que uma revolução se processava na Iuguslávia ou uma tentativa de controle comunista”. as atitudes e ambições políticas de Stalin eram imutáveis, a despeito de quaisquer gestos de amizade que ele pudesse fazer. (pág. 100)

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Eu julguei muito arriscada a leitura dele em diversos ângulos. Deixo aqui bem claro que não tenho qualquer apego, admiração, empatia, inclinação ou atração pela memória de Stalin, mas essa interpretação de Gellately sobre as responsabilidades prioritárias da URSS pela Guerra Fria me parece uma reprodução da historiografia conservadora dos anos 50, e sua posição claramente de direita compromete bastante confiabilidade da obra.

Se você se interessou por esse livro, mesmo que discorde das opiniões do autor, e deseja adquiri-lo para melhor confronto de ideias, pode comprar neste link pela Amazon, assim você ajuda o blog a crescer e não paga nada a mais por isso.

Resenha do livro A Bagaceira, José Américo de Almeida.

Oi, pessoal! Tudo bem?

Hoje trago pra vocês uma indicação de livro  que tem uma história forte, triste, densa, sendo uma obra muito importante para a literatura nacional, porque abriu caminho para  Graciliano Ramos, Rachel de Queiroz, José Lins do Rego, dentre outros.

Detalhes:

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  • Capa comum: 280 páginas
  • Editora: José Olympio (21 de janeiro de 2017)
  • Idioma: Português
  • ISBN-13: 978-8503012997
  • Dimensões do produto: 22,6 x 15 x 2 cm
  • Peso do produto: 522

Valentim é um retirante da seca que sai da fazenda onde trabalhava com sua filha Soledade e seu filho adotivo Pirunga, e os três acabam pedindo emprego na fazenda Marzagão, de propriedade de Dagoberto, um  senhor de engenho viúvo que tem um filho estudante de Direito, Lúcio, que, no começo da história, está passando férias com seu pai na fazenda. Logo Lúcio e Soledade começam uma relação de amizade onde ambos tem interesses mais profundos, mas nenhum dos dois consegue tomar a iniciativa e falar de forma clara sobre seus sentimentos e anseios, o que dificulta muito o desenvolvimento da relação.

Soledade é retratada como a menina-mulher que chama a atenção dos homens por sua beleza e usa disso para brincar com todos (e esse foi um ponto que me incomodou bastante, mas dentro do contexto social da época é perfeitamente compreensível que existisse essa visão da mulher fatal e irresistível que levava os homens a cometerem loucuras por seu amor). Lúcio é o clichè do bom moço do sertão que sai da fazenda para estudar e retorna nas férias para aprender a lidar com os negócios do pai.

Assim começa um verdadeiro vai – não vai entre Soledade e Lúcio, que não chegam a consumar o seu amor porque o rapaz tem medo de desonrar a moça e não ser capaz de assumir o romance, o que deixa Soledade bastante ansiosa e impaciente, pois ela quer ter um relacionamento estável. Assim, Lúcio volta para a cidade e  deixa Soledade ainda mais angustiada.

Acontece que boatos sobre Soledade fazem com que Valentim desconfie de que alguém está seduzindo sua filha e, ao confrontá-la, ela acaba por acusar uma pessoa da fazenda que se torna vítima de Valentim. Este vai preso e pede a Pirunga que tome conta de sua filha. Lúcio, que tinha voltado para a faculdade, retorna para a fazenda e anuncia ao pai sua paixão pela moça, mas é surpreendido por revelações que o farão desistir de seu amor.

Pirunga descobre quem é o verdadeiro autor da desonra de Soledade e, num ato de vingança por ciúmes, o mata, e também atenta contra a integridade física de sua irmã de criação.

Os anos passam e Lúcio retorna para a fazenda, casa-se, tem seus filhos e um final emocionante traz um desfecho impactante para o leitor.

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Minhas impressões

É um livro difícil, com um ar teatral no qual o autor não usa de muitas descrições, parece que as personagens tomam vida própria e estão ali “vivendo suas vidas”, e  o autor está apenas contando fragmentos de uma história que não tem motivo para ser profunda, visto que é a mesma que se repete em ciclos no interior de muitas outras fazendas do sertão nordestino.

O estudante comparou a mentalidade do engenho, resíduos da escravaria, os estigmas da senzala, esses costumes estragados com a pureza do sertão.

E sentia que, com o andar do tempo, se estupidificava nesse meio execrável.

Enquanto o narrador em terceira pessoa usa uma linguagem rebuscada,  a fala das personagens enche o livro de regionalismo que requerem um glossário para auxiliar na compreensão do texto, que acompanha a obra ao final do livro.

– Eu estava canso de avisar. mas o freguês tinha nó pelas costas, era cheio de noves fora. Aí, dei de garra do quiri. O bruto entesou. Aguento a primeira pilorada – lepo! – no alto da sinagoga.  Arrochei-lhe outra chumbergada. aí, ele negou o corpo, apragatou-se, ficou uma moqueca. E veio feito em riba de mim. Arta! danado! Caiu ciscando, ficou celé!… Foi pancada de morte e paixão. Vá comer, terra!… Fugiu na sombra e levou um tempão amocambado.

A escrita também está impregnada de lirismo, que pode confundir um pouco o leitor, mas é tão poética e bela que vale o esforço:

Não! a mulher que ama é a que diz menos, porque é a que mente mais.

Só a mulher que sofre diz tudo num grito de dor.

A minha maior dificuldade foi conseguir deduzir o que o narrador estava contando porque a escrita se desenvolve de forma a não deixar claro os acontecimentos, e o leitor só descobre o que de fato aconteceu no capítulo seguinte, quando dá-se o resultado da cena anterior. Isso é uma característica da escrita do autor, que pode cansar um pouco, mas os fatos podem ser deduzíveis, então a leitura flui através das cenas entrecortadas.

Eu gostei bastante, para mim foi uma experiência de leitura diferente, muito interessante, e senti empatia com muitos personagens, conseguindo me colocar no lugar de cada um e entender o rumo da história, que é perfeitamente possível, dando um traço de realidade.

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Fica aí a minha dica fortíssima de livro nacional, que não é muito conhecido, de um autor um pouco esquecido, mas que merece toda a nossa atenção e carinho.

Um beijão em todo mundo, até a próxima!

Graciliano Ramos – Muros sociais e aberturas artísticas.

Sabe quando você termina de ler um livro mas continua “preso” na história, que é tão boa, tão instigante, que permanece ecoando na tua mente por muitos dias após a leitura? Então, as obras do mestre Graciliano Ramos costumam exercer esse poder sobre nós. Ano passado eu tive o meu primeiro contato com esse autor na leitura de São Bernardo, e essa foi uma história forte, intrigante, que me deixou ansiosa por aprofundamento, que me fez pensar em questões sociais, filosóficas e culturais, e eu não tive contato com nenhum texto de apoio para ajudar em meus questionamentos. É aí que entra esse livrinho aí da foto! Ele é pequeno, curtinho, e a gente acha que vai ler numa sentada, rapidinho…

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Não mesmo!

Muros Sociais e aberturas artísticas é uma coletânea de doze textos que tem o objetivo de pensar a obra de Graciliano Ramos com outras obras literárias do Brasil, Portugal e Cabo Verde, numa reflexão comparativa com estudos de sociologia, política e outras áreas do saber e das artes em geral, inclusive apontando a importância da obra do autor para as crianças. As análises trazidas no livro são curtinhas, mas profundas e muito relevantes para quem deseja um mergulho na mente do autor, com análise de personagens e ambientações, o que nos ajuda a pensar as histórias e questionar o que é ficção e o que existe de autobiográfico ou não.

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“O desnorteio e a alienação da personagem, que já não tem o controle do tempo e do espaço, ficam patentes com a confusão entre o tempo presente e o passado da memória” – sobre a angústia e solidão de Paulo Honório em São Bernardo, por Andrea Trench de Castro.

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Os autores da coletânea fazem parte de um grupo de pesquisa de estudos comparados das obras de Graciliano Ramos da USP e tem como organizador o professor e crítico literário Benjamim Abdala Jr., ou seja, é uma obra indispensável para colecionadores, estudiosos e curiosos.

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Minhas impressões: achei um livro bastante técnico que, para o leitor médio pode assustar de início, mas que agrada pelo conteúdo riquíssimo e usos comparativos com outras artes, o que ajuda na compreensão dos textos. Para estudantes de Letras é indispensável porque abre um leque de possibilidades de abordagens e estudos críticos. Não aconselho a leitura para quem não gosta de spoilers e ainda não leu os livros estudados nos ensaios. Para esses, a leitura dos textos deve ser feita após a leitura dos respectivos livros aos quais se referem, funcionando como verdadeiros textos de apoio. Para quem, como eu, não se preocupa com isso, é uma boa forma de começar a ler e se apaixonar por Graciliano Ramos.

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  • Capa comum: 336 páginas
  • Editora: Record (10 de março de 2017)
  • Idioma: Português
  • ISBN-10: 8501108251
  • ISBN-13: 978-8501108258
  • Dimensões do produto: 23 x 16 x 2 cm
  • Peso do produto: 440 g
  • Minha avaliação: 5/5

David Copperfield, Charles Dickens.

  • Capa dura: 1312 páginas
  • Editora: Cosac & Naify (13 de outubro de 2014)
  • Idioma: Português
  • ISBN-10: 8540507862
  • ISBN-13: 978-8540507869
  • Dimensões do produto: 17,6 x 12,8 x 7 cm
  • Peso do produto: 1 Kg

Sinopse

Um dos pilares da literatura ocidental moderna, Charles Dickens é até hoje fonte de inspiração para muitos escritores. Seu gênio foi admirado por Tolstói, Marx, Joyce, Kafka, Henry James, Nabokov, Orwell, Cortázar, entre muitos outros.
Semi-autobiográfico, David Copperfield foi publicado em forma de folhetim entre 1849 e 1850. O autor afirma, no prefácio ao livro, que, entre os inúmeros romances que publicou, este era seu “filho predileto”. A edição inclui textos críticos de Jerome H. Buckley, Sandra Guardini Vasconcelos e Virginia Woolf. Tradução de José Rubens Siqueira.

Primeiro livro do projeto #12calhamacos2017 já foi! E que “livrão”, minha gente! Nos dois sentidos! 😄

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David Copperfield é uma semi-autobiografia do Dickens publicada em 1849/50. Conta a história de um órfão que perde seu pai seis meses antes de seu nascimento e, mais tarde, sua mãe casa com um homem muito duro e amargo, que prejudicará muito a vida de David e seu relacionamento com sua mãe. David, então, aprende desde muito cedo os horrores da solidão e da maldade humana, e enfrenta inúmeras dificuldades sem deixar que nada retire de sua essência sua doçura e inocência, que é tanta que a gente sente agonia por ele ser tão bonzinho e confiar em todo mundo que se apresenta como amigo.

O livro é narrado em primeira pessoa e traz vários personagens, cada qual com seus dramas, personalidade, histórias muito bem delineadas e que receberão um desfecho final muito bem amarradinho, contribuindo para o fim harmônico da história do narrador. A narrativa conta a história de David desde seu nascimento até a vida adulta, e passeamos pela Inglaterra do Séc XIX com todos os problemas e dificuldades enfrentados por ele naquela sociedade. O amadurecimento do personagem é tão nítido e tão bem feito que podemos nos sentir verdadeiros expectadores de sua vida. Senti pena, raiva, amor, alegria, tantos sentimentos que sequer consigo expressar. É uma grande viagem e vale a pena degustar sem pressa, deixando a história crescer junto com seu narrador, vivenciando com ele todos os seus dramas pessoais e de seus amigos.

Eu já estou com saudades de todos!

Leitura mais que recomendada, obrigatória para todos os amantes de um bom clássico

Minhas impressões: Dois irmãos, Milton Hatoum

Oi, pessoal! Tudo bem?

Hoje trago para vocês meu segundo livro encerrado deste mês de janeiro. Sim, já li dois livros e estou lendo mais dois. Comecei o ano muito bem em minhas leituras e estou muito animada, acho que será um ano realmente proveitoso.

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Escolhi esse livro pelo motivo mais óbvio: hoje começa aquela minissérie da Globo e eu não quero tomar um monte de spoiler pela cara, pois já vi algumas entrevistas do autor e parece que a direção respeitou bastante a história, será algo fiel ao livro e eu fiquei com vontade de assistir. Eu não vejo TV há dois anos, então ainda não sei se vou conseguir acompanhar a série direitinho, mas fiz questão de ler logo o livro e estou muito grata por isso porque foi uma leitura incrível.

O livro tem 266 páginas e eu devorei em menos de 24h. Na verdade eu comecei a ler por volta das 16h da última sexta-feira e pretendia ler até a meia-noite daquele dia, mas não rolou porque tive diversos afazeres domésticos que me tiraram do foco. Então retomei a leitura no dia seguinte e terminei super rápido.

O romance é ambientado em Manaus, começando por volta dos anos 20/30 e atravessando o golpe militar de 64, narrado em primeira pessoa por Nael, o personagem central da trama. Tudo nos é mostrado pelo ponto de vista dele, seja pelo que ele viu e viveu, ou pelas histórias que ele ouviu dos outros personagens. Nael é filho de Domingas, uma órfã que foi adotada ainda como empregada por Halim e sua jovem esposa Zana. Esse casal apaixonado teve três filhos, Omar e Yaqub, gêmeos que se odiavam desde a infância, e Rânia, a única filha mulher do casal.

É muito importante destacar que Halim não queria filhos, mas Zana sempre quis três. Halim queria a mulher só para ele, e isso tem um grande peso em toda a história, inclusive sobre o ódio entre os irmãos: Omar, o “caçula”, desprezado pelo ciúme do pai sobre a proteção exagerada da mãe, e Yaqub, o que nasceu primeiro e sempre foi visto como o mais forte, o mais independente e a grande promessa da família.

Nael nos conta sobre sua própria família, que ele observa e vai juntando as peças de um enorme quebra-cabeças na esperança de entender suas origens e descobrir quem é o seu verdadeiro pai. Sim, Nael é filho de um dos homens da casa, mas sempre fora tratado como o filho da empregada.

Mas não se engane, a história não é tão simples e não é apenas sobre Nael ou sobre o ódio entre os gêmeos. É a história dos imigrantes libaneses, dos habitantes nativos de Manaus, da cidade e sua degradação, de uma família e seus dramas particulares. Temos uma riqueza enorme de temas, uma variação no tempo com personagens bem descritos, cada qual com sua personalidade muito desenvolvida.

Não existe um mocinho e um bandido, todos tem suas características boas e más, suas dores, suas angústias e suas razões.  A ambientação é detalhada sem ser cansativa, e o leitor tem a oportunidade de se colocar ao lado de Nael, observando e pensando a história junto com o narrador.

Foi uma experiência de leitura realmente necessária e eu tenho certeza que esse livro se tornará, se já não é, um grande clássico da literatura brasileira..

Resenha: Germinal, de Emile Zola. #projeto142classicos

 

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  • Formato: eBook Kindle
  • Tamanho do arquivo: 5288 KB
  • Número de páginas: 485 páginas
  • Editora: Centaur (5 de setembro de 2011)
  • Vendido por: Amazon Servicos de Varejo do Brasil Ltda
  • Idioma: Português
  • ASIN: B005LHQUL0

Descrição:

Fundador e principal autor do naturalismo literário, Émile Zola levou a descrição realista a extremos de crueza, especialmente na denúncia das condições de trabalho da classe operária do século XIX. A estética naturalista do escritor, inspirada na filosofia positivista e na medicina da época, partia da convicção de que a conduta humana é determinada pela herança genética, pela filosofia das paixões e pelo ambiente. Germinal (1885) é universalmente considerada a obra-prima do autor. Foi a partir de Germinal – descrição das condições de vida subumanas numa comunidade de mineiros – , que Zola começou a destacar os elementos de opressão social como responsáveis pela paralisação moral da humanidade. Germinal é um romance poderoso escrito por um autor poderoso.

Resenha

Germinal é um romance naturalista escrito por Emile Zole que conta a história de trabalhadores mineiros que entram em greve exigindo melhorias salariais e de condições de trabalho. O autor chegou a passar dois meses convivendo com mineiros e burgueses da região a fim de escrever um retrato fiel daquela parte da sociedade francesa do século XIX.

O livro começa com Etienne Lantier, um homem que aparece na região de Montsou, andando sem rumo em busca de emprego, com fome e frio, quando encontra um homem velho, trabalhador das minas de carvão da região. Posteriormente, Etienne consegue uma vaga de trabalho nas minas e vai morar na casa desse homem, o velho Boa-Morte, patriarca de uma família com sete pessoas. Ele se apaixona por Catherine, neta do velho Boa-Morte mas não consegue viver essa paixão porque a menina namora um dos trabalhadores das Minas, o violento Chaval. Etienne, então, mergulha naquela sociedade faminta e miserável, onde homens, velhos, mulheres e crianças trabalham debaixo da terra em condições insalubres, sem qualquer tipo de proteção, num calor de mais de 40º, e onde são submetidos a doenças, promiscuidade, violência, fome e todo tipo de barbárie.

O trabalho nas minas se torna cada vez mais sacrificante diante de novas exigências dos empregadores, que retiram parte do ordenado dos miseráveis trabalhadores. Diante de tudo isso, fome, violência, frio, Etienne começa a estudar ideias socialistas e incita os trabalhadores a tomarem uma providência, o que eclode numa greve geral para forçar o aumento de salário e melhorar as condições de trabalho.

 Minhas impressões

Li este romance por indicação da disciplina de Sociologia para a faculdade de Letras. O livro inaugura o naturalismo literário, estilo de escrita onde o autor narra de forma totalmente impessoal e analisa a história sob o ponto de vista biológico, psicológico e social, apontando saídas e soluções para os problemas que propõe.

Uma gama variada de perguntas confusas não o deixava em paz: por que havia tanta miséria de um lado e tanta riqueza de outro? Por que estes tinham de viver escravizados àqueles, sem a menor esperança de um dia mudarem de posição? A primeira etapa vencida foi a da compreensão de sua ignorância. Uma vergonha secreta, um desgosto oculto começaram a atormentá-lo: nada sabia, não ousava falar sobre essas coisas  que eram a sua paixão, a igualdade entre os homens, a justiça que exigia que os bens da terra fossem repartidos entre todos.

Essa foi uma leitura difícil, levei aproximadamente dois meses para concluí-la porque comecei em meio aos estudos da faculdade e, concomitantemente, estava lendo o livro Ilusões Perdidas, do Balzac. Então foram dois livros densos e, ainda, em meio a provas e trabalhos. Mas, assim que terminei as provas, engatei na leitura deste livro e terminei ontem, três dias depois que a retomei.

Senti-me muito desconfortável em muitos trechos da narrativa, principalmente quanto ao machismo e a forma como os pais enxergavam os filhos. Vejamos o que a mãe fala para a filha que saiu de casa para morar com o amante:

Veja eu, estava grávida quando casei, mas não fugi da casa dos meus pais, nunca faria essa sujeira de entregar antes da idade o dinheiro dos meus dias de trabalho a um homem que não precisa. Ah, como tenho razão de estar enojada de tudo! Vai chegar o tempo em que não se quererá ter filhos…

Ou seja, naquela sociedade as pessoas se reproduziam para que os filhos futuramente ajudassem na subsistência da casa. Quando um filho saía de casa, isso significava um prejuízo financeiro para os pais, mas os pais não pensavam que ter filhos era ter mais pessoas para alimentar.

Uma coisa que não gostei no livro é que tem capítulos excessivamente descritivos que se tornam muito cansativos ao longo da narrativa, mas que, ao mesmo tempo, consegue transmitir com muita clareza suas ideias. Esse ponto negativo não tira a genialidade da história, apenas considero uma parte um pouco maçante, mas necessária, da obra.

O contraste social da alta burguesia, com suas mansões, seus móveis luxuosos e sua mesa farta, e as pessoas que se julgavam boas demais quando davam um pedaço de bolo por esmola, isso me fez refletir bastante sobre nossos papéis na sociedade, no quanto essa história é atual.

O resumo do que eu senti com esse livro: sonhei a noite toda com as minas, com a violência, a fome e o frio. Sonhei com Catherine e outras personagens. Que livro triste, que história cruel!

O autor tem uma narrativa muito pontual, que mergulha em todos os aspectos daquela sociedade e traça a personalidade de cada uma das personagens de forma muito objetiva. Ao terminar a leitura do livro fiquei um tempo me perguntando quem era a protagonista e concluí claramente que são as minas de carvão, com suas entranhas que atraiam, engoliam e exterminavam, aos poucos, aquela população mineira doente e marcada pela miséria.

É um livro que te transforma, acho impossível terminar a leitura sem sofrer mudanças internas significantes.

Se você já leu o livro deixe sua opinião nos comentários, eu adoro trocar ideias sobre minhas leituras com vocês!

 

 

 

 

Resenha: Holocausto Brasileiro – Projeto #lendo100mulheres

 UPDATE: Acho que peguei muito pesado com minhas opiniões nesta resenha, chegando a parecer grosseira porque estava muito frustrada com a leitura e resenhei assim que terminei o livro, portanto, pensei muito e resolvi editar o post em 24/05/2016.

Holocausto Brasileiro, escrito por Daniela Arbex.

Formato: eBook Kindle

Tamanho do arquivo: 25311 KB

Editora: Geração Editorial (1 de junho de 2013)

Vendido por: Amazon Servicos de Varejo do Brasil Ltda

Idioma: Português

ISBN 978-85-8130-156-3

 

Descrição:

Durante décadas, milhares de pacientes foram internados à força, sem diagnóstico de doença mental, num enorme hospício na cidade de Barbacena, em Minas Gerais. Ali foram torturados, violentados e mortos sem que ninguém se importasse com seu destino. Eram apenas epiléticos, alcoólatras, homossexuais, prostitutas, meninas grávidas pelos patrões, mulheres confinadas pelos maridos, moças que haviam perdido a virgindade antes do casamento.Ninguém ouvia seus gritos. Jornalistas famosos, nos anos 60 e 70, fizeram reportagens denunciando os maus tratos. Nenhum deles — como faz agora Daniela Arbex — conseguiu contar a história completa. O que se praticou no Hospício de Barbacena foi um genocídio, com 60 mil mortes. Um holocausto praticado pelo Estado, com a conivência de médicos, funcionários e da população.

Resenha

 

O livro é no estilo livro-reportagem que tem a pretensão de trazer um documentário dobre as barbáries cometidas dentro do hospital psiquiátrico Colônia de Barbacena. Traz algumas passagens da vida de alguns ex-pacientes, bem como de alguns ex-funcionários e conta algumas histórias sobre o tratamento que era dispensado aos doentes. Também conta que muitas pessoas internadas no hospital não eram doentes, mas apenas pessoas que transgrediram o sistema de alguma forma, seja moral ou social.

A história do hospital é brevemente relatada, alguns dos abusos cometidos também e há muitas histórias sobre alguns dos sobreviventes. A autora também fez questão de destinar muitas páginas para o fotógrafo autor das fotos que ilustram a obra, relatou passagens das vidas de alguns médicos que trabalharam no hospital e contou de forma breve como o hospital foi desativado.

Minhas impressões

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Foto do Instagram

 

Terminei a primeira leitura do projeto #lendo100mulheres e o que era pra ser uma leitura super empolgante virou uma expressão de “é, né”. Que livro ruim. Sinceramente, cheguei a pensar que fora uma perda de tempo porque o que eu li no livro poderia ser facilmente encontrado pela internet, e teria me poupado algumas linhas desagradáveis que me soaram como “babação de ovo” desnecessária ao fotógrafo, a alguns médicos e muitos políticos.

Contaram com o apoio do diretor João Raymundo Coutto da Matta, até receberem o primeiro salário.

Por essa nota, que se repete em muitas linhas da mesma maneira, a autora faz questão de dar nome e sobrenome a alguns, mas outros funcionários menos expressivos eram apenas chamados de “Zé”, “Maria”, ou seja, pareceu-me que a autora deu nome e sobrenome a quem importava.

A autora não se aprofundou no assunto, não contou a história do hospital, de como foi construído, quem o fundou, o porquê foi criado, o porquê da escolha daquela Cidade, não tem sequer uma planta do lugar.

Na chegada, como o motorista havia errado o caminho, o jornalista e a fotógrafa Jane Faria entraram pela porta dos fundos, onde havia mato alto e lixo…

Querida Daniela Arbex, se um dia você ler isto, CADÊ AS FOTOS DESSE LUGAR COM MATO ALTO E LIXO? E cadê as fotos do lugar onde eles dormiam, que você descreve como  coberto de capim? Sobram fotos dos pacientes nus no pátio, mas outras descrições ficam sem qualquer ilustração, parecendo que esse trecho só serviu para informar o nome da fotógrafa. Fica a reflexão.

No todo as histórias são pinceladas, com aquele texto super apelativo e desnecessário porque a história de horror fala por si mesma, não precisava nominar o inominável. e o mais curioso é que a autora traça esse raciocínio num trecho:

As palavras sofrem com a banalização. Quando abusadas pelo nosso despudor, são roubadas de sentido

Como eu acredito que tudo o que a gente lê serve para alguma coisa, posso dizer que o livro valeu por essa frase que é bastante emblemática.

Conclusão: é aquele tipo de leitura chata, estilo Globo Repórter, sabem? O livro mal informa e não desperta grandes emoções.

Então é isso, não vou me alongar porque a leitura não me disse muita coisa, aliás, não me disse nada de interessante. Eu acho que esse livro foi escrito em homenagem a médicos, políticos e jornalistas, porque porque a história do lugar virou pano de fundo para babação de ovo. #prontofalei

Gostaria de abrir o debate, então, se você já leu e tem uma opinião diferente, deixe nos comentários, vamos trocar uma ideia!

Beijocas.

 

 

Resenha: Triste fim de Policarpo Quaresma

Triste fim de Policarpo Quaresma, escrito por Lima Barreto.

Editora: Saraiva

Páginas: 240

ISBN: 978.85.209.2727-4

Coleção Saraiva de Bolso.

Descrição:

Publicado inicialmente em folhetins no ano de 1911, “Triste fim de Policarpo Quaresma” é um romance do período do Pré-Modernismo brasileiro. Por meio da vida tragicômica do major Quaresma, um nacionalista fanático, ingênuo e idealista, Lima Barreto revela as estruturas sociais e políticas do Brasil da Primeira República, enfocando os fatos históricos do governo de Floriano Peixoto.

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Resenha

O livro trata da história do major Policarpo Quaresma, um funcionário público que na verdade não era major de patente, sendo esta alcunha apenas um apelido recebido de seus colegas. Ele era um nacionalista, um homem íntegro, correto e de uma honestidade que beirava à inocência, pois acreditava nos valores do Brasil como nação acima de qualquer outra coisa.

Era um homem estudioso, que quando se interessava por um assunto pesquisava em diversos livros, até conseguir total domínio sobre aquilo. Por conta disso, descobriu o tupi guarani, língua nativa dos índios, e cismou que essa deveria ser a língua falada no Brasil, por conta de nossos ancestrais silvícolas. Chegou ao ponto de, no auge de sua obsessão pelos costumes nativos, incorporar alguns costumes dos índios em suas próprias relações sociais, tais como receber visitas com um grande pranto. Policarpo atinge o ápice da loucura quando escreve um memorando exaltado sugerindo que o Brasil adotasse o tupi guarani como língua oficial e, assim, foi exposto ao ridículo perante a sociedade e acabou por se internar num manicômio para tratar sua cisma que o fazia parecer louco perante a sociedade brasileira ultra conservadora do final do século XIX.

Saindo do hospício, Policarpo vai para o campo com sua irmã, com quem sempre viveu, pois jamais casou-se ou se envolveu intimamente com mulher alguma. Policarpo já não fala de seus ideais nacionalista mas continua sonhador, acreditando que não há melhor terra que o Brasil, e passa a nutrir o sonho de viver da produção de sua terra. Novamente nosso herói é mal interpretado e atrai os olhares nada amistosos dos coronéis e políticos da região, que o enxergam como um possível rival.

Infelizmente a terra não corresponde às expectativas de Policarpo, que enfrenta pragas na lavoura e  se vê ameaçado, recomeçando novas plantações sem obter êxito. Até que um ataque de formigas saúvas destrói todo o seu trabalho e o obriga a desistir da vida de agricultor.

Nesta época, concomitantemente às desilusões agrárias de Policarpo, eclode a guerra Revolta da Armada, na qual a Marinha do Brasil, apoiada pela oposição monarquista à recém instalação da República, se volta contra o governo de Floriano Peixoto, e Policarpo se apresenta para lutar pelo Tirano.

Durante a guerra Policarpo novamente se vê desiludido com algumas questões governista e, após vitória do governo, Policarpo é preso como traidor apenas por se opor ao tratamento desumano dispensado aos prisioneiros de guerra.

 

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Minhas Impressões:

Comprei essa edição de bolso da Saraiva, mais para cumprir minha meta de livros nacionais para ajudar a entender a política atual e a sociedade brasileira, como mostrei aqui neste post. Fui surpreendida positivamente com essa história, que tocou-me profundamente por causa de minhas antigas aspirações profissionais de advogada que lutava por justiça e pelo cumprimento da lei. #fail.

Como se pode ver, o livro traz três fases muito bem delimitadas, sendo primeiro traçado um perfil completo da sociedade da época, onde Policarpo aparece inserido mas não adaptado, pois percebe-se um homem deslocado do convívio com seus pares, por não se encaixar nos padrões da época. Senti isso no fato de ele ser solteiro e viver com a irmã, enquanto toda a sociedade pregava o casamento; também pela inadequação às regras sociais, como por exemplo, “cidadãos de bem” não poderem misturar-se com artistas, pois Policarpo foi hostilizado por tomar aulas de violão com o amigo Ricardo Coração dos Outros, a fim de aprender a tocar modinha. Tal prática era tida como prática de vagabundos, e Policarpo recebeu inúmeras críticas por receber em sua casa um violeiro.

– É bom pensar, sonhar consola.

-Consola, talvez, mas faz-nos também diferentes dos outros, cava abismos entre os homens.

Na segunda fase da vida de Policarpo, temos um homem recém saído do hospício devido aos seus devaneios patrióticos, mais decepcionado com a sociedade e que se retira para o campo ainda mantendo a fé na sua pátria tão adorada. Policarpo, aqui, mantém-se fora das questões políticas, tentando não se envolver com problemas da região, mas ao mesmo tempo fornece ajuda para os moradores do lugar, o que leva as autoridades a desconfiarem de suas intenções, gerando um clima de tensão na história.

O trem apitou e ele demorou-se a vê-lo chegar. É uma emoção especial de quem mora longe, essa de ver chegar os meios de transporte que nos põem em comunicação com o resto do mundo. Há uma mescla de medo e de alegria. Ao mesmo tempo em que se pensa em boas-novas, pensam-se também más. A alternativa angustia…

Abaixo uma das falas que mais tocaram meu coração, mais atuais, que mais retratam a triste realidade do povo brasileiro. Achei impressionante que mesmo dois séculos depois recebemos o mesmo tratamento de nossos governantes:

-Terra não é nossa…E “frumiga”?…Nós não “tem” ferramenta…isso é bom para italiano ou “alemão”, que governo dá tudo…Governo não gosta de nós….

Na terceira fase Policarpo continua fiel a seus princípios e crente em seus deveres patrióticos, assim, entrega-se ao serviço militar onde finalmente alcança a patente de major por nomeação. Contudo, Policarpo desilude-se de vez e entra num estado de auto crítica e análise profundos, que tornam-se o ponto central de seu triste fim.

 

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Termino com o momento de epifania de Policarpo, onde o narrador o vê em desgraça e tem a compreensão do todo; momento em que, finalmente, Policarpo cai em si e se desilude de suas românticas ambições patrióticas:

A pátria que quisera ter era um mito; era um fantasma criado por ele no silêncio do seu gabinete. Nem a física, nem a moral, nem a intelectual, nem a política que julgava existir havia, a que existia de fato era a do tenente Antonino, a do doutor Campos, a do homem do Itamaraty.

 

E aí? gostaram da resenha? Deixe suas impressões nos comentários, por favor!

Beijinhos.

 

 

Desonra, J. M. Coetzee.

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Desonra, escrito por J. M. Coetzee
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 256
ISBN: 978-85-359-0080-4
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Sucesso de público e crítica – foi publicado em mais de vinte países e ganhou o Booker Prize, o mais importante prêmio literário da Inglaterra -, Desonra é considerado o melhor romance de J. M. Coetzee. O livro conta a história de David Lurie, um homem que cai em desgraça. Lurie é um professor de literatura que não sabe como conciliar sua formação humanista, seu desejo amoroso e as normas politicamente corretas da universidade onde dá aula. Mesmo sabendo do perigo, ele tem um caso com uma aluna. Acusado de abuso, é expulso da universidade e viaja para passar uns dias na propriedade rural da filha, Lucy.
No campo, esse homem atormentado toma contato com a brutalidade e o ressentimento da África do Sul pós-apartheid. Com personagens vivos, com um ritmo narrativo que magnetiza o leitor, Desonra investiga as relações entre as classes, os sexos, as raças, tratando dos choques entre um passado de exploração e um presente de acerto de contas, entre uma cultura humanista e uma situação social explosiva.

Resenha

John Maxwell Coetzee (a pronúncia correta é “coutzía”) é um professor de literatura e linguistica, e escritor sul africano que atualmente mora na Austrália, onde ainda leciona. É um homem recluso, pouco afeto a tietagens e tem o costume de não aparecer para receber os prêmios que alcança com suas obras. Desonra (em inglês foi lançado como Disgrace) é um dos livros mais importante da carreira do escritor, que recebeu o pêmio The Man Booker Prize em 1999, ano de seu lançamento.

Desonra é um romance escrito originalmente em língua inglesa e conta a história ambientada na África do Sul pós-Apartheid do professor  de literatura David Lurie, um homem de meia idade solitário cujo relacionamento mais próximo mantém com uma prostituta que, por alguns acontecimentos, acaba por  afastar-se dele.

“No campo do sexo, seu temperamento, embora intenso, nunca foi passional. Se tivesse de escolher um animal totem, seria a cobra. A relação sexual entre Soraya e ele deve ser, imagina, comouma cópula de cobras: prolongada, absorvente, mas um tanto abstrata, seca, mesmo no ponto mais quente”.

Diante da solidão ainda mais proeminente em sua vida, Lurie começa um relacionamento um tanto quanto estranho com uma de suas alunas, e não enxerga o quão abusivo esse relacionamento é. A forma como ele aborda a aluna e conduz toda a situação culmina com sua expulsão da faculdade onde leciona.

Assim, ele vai para o interior do país viver com sua filha Lucy, que não vê há alguns anos. Lucy é homoafetiva e recebe ajuda de alguns vizinhos para tocar os negócios, pois sonha em viver de suas produções. Lurie, então, encontra uma realidade muito diferente da que está habituado e passa a conflitar suas ideias com a dos habitantes locais.

Alguns acontecimentos traumatizantes levam Lurie a enfrentar seus próprios preconceitos e a aceitar posicionamentos muito diferentes dos seus, o que leva a uma auto reflexão e auto crítica muito profundas, que culminam em mudança de condição.

O livro traz temas pesados como assédio, machismo, estupro e violência contra animais, e trata esses assuntos de forma dura e direta.

Minhas impressões.

Eu amei a história, que me impactou desde as primeiras frases. O texto é cheio de reflexões do Lurie, que nos levam a refletir junto com ele e a descobrir a personagem pouco a pouco. Eu comecei o livro com uma ideia totalmente diferente, e, por vezes, me peguei tentando ajudar o Lurie mentalmente, tentando colocar palavras  que ele não conseguia dizer. O livro é o tempo todo assim: um nó na garganta de quem tem muito a dizer e não consegue se expressar de forma que o interlocutor entenda, uma verdadeira lição de linguística, de exemplos de como não se deve portar em meio a receptores que não tem capacidade de entender a mensagem do emissor que, por sua vez, não consegue alcançar seus recptores.

“Sua opinião, que ele não ventila, é que a origem da fala está no canto, e as origens do canto na necessidade de preencher com som o vazio grande demais da alma humana”.

Lurie também é confrontado o tempo todo com seu lugar no mundo depois que alcança a idade madura, os conflitos próprios de quem está chegando à terceira idade e não aceita esse destino.

“Será que podem ser condenados por se agarrar até as últimas ao seu lugar no doce banquete dos sentidos?”

Não que Lurie se porte como um adolescente, ao contrário, ele apenas não se reconhece como as limitações de um homem de meia idade e não as aceita, e isso gera muitos obstáculos para que ele encontre satisfação pessoal.

“Depois de uma certa idade a gente simplesmente não é mais atraente, e ponto final. é se conformar e viver o resto da vida. Cumprir o mandato”.

Mas não espere um desfecho inesperado, cheio de grandes acontecimentos e momentos marcantes. O livro termina do jeito que começou: uma história contada de forma seca, crua e realista. Enquanto,terminava de ler as últimas linhas do livro, mentalmente e, ao mesmo tempo, eu pensava que não ia dar tempo de acabar, que ainda teria muita coisa para acontecer, que aquele final era indigno, era quase cruel. E acabou. Como as palavras do Lurie não atingiam seus interlocutores como ele esperava, suas palavras cessaram e ele aceitou sua condição de homem em desgraça.

Gostou dessa resenha? Já leu ou tem vontade de ler o livro? Conte-me tudo nos comentários, eu adoro trocar ideias com vocês!