A maldição de Stalin, Robert Gellately

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  • Capa comum: 560 páginas
  • Editora: Record (27 de janeiro de 2017)
  • Idioma: Português
  • ISBN-10: 8501403784
  • ISBN-13: 978-8501403780
  • Dimensões do produto: 22,6 x 15,2 x 3,6 cm
  • Peso do produto: 739 g

As origens da influência internacional de um dos ditadores mais temidos do mundo.
Nos anos 1930, já tendo se tornado em tudo um ditador, Stalin empregava o terror como método de governo, justificando-o como maneira de preservar a revolução dos ataques de seus inimigos internos e externos. Ao mesmo tempo, fomentava um culto à liderança que o transformou em uma espécie de deus, a inspirar ativistas e simpatizantes ao redor do mundo. Com base em numerosos documentos originais russos e outras fontes do Leste Europeu, liberados após o fim da União Soviética, além de muitos outros documentos alemães, americanos e ingleses, o historiador best-seller Robert Gellately delineia as origens da crescente influência internacional do tirano, que se inicia nos primeiros dias da Segunda Guerra Mundial e permanece mesmo após sua morte, em 1953. O autor ainda examina o papel central desempenhado por Stalin – com consciência estratégica – no trabalho de implementar o comunismo na Europa e em todo o mundo, de maneira que, ainda hoje, muitos milhões de pessoas aguentam nos ombros seu legado – ou sua maldição.

O autor canadense é professor da Universidade Estadual da Flórida, especialista na Alemanha Nazista, e utilizou fontes da Alemanha, Grã-Bretanha, especialmente dos EUA ,e algumas soviéticas, cedidas após o término da Guerra Fria. Em sua obra, defende que Stalin foi o grande responsável pelo início e continuidade da Guerra Fria, e não os EUA, como a maioria entende. O autor não admite nem mesmo uma culpa conjunta entre as duas potências, o que já traz uma grande problemática para a obra.

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O livro traz centenas de referências bibliográficas em sua parte final (notas), o que traz um certo peso à obra, mas confesso que não pesquisei sobre elas. É dividido em três partes: a primeira traz o desenvolvimento e estabelecimento da União Soviética e da Segunda Guerra Mundial. a parte dois contém um compêndio do pós-guerra, contando como se deu a negociação entre as nações, e a parte três que se dedica à Guerra Fria, falando do regime socialista em diversos países da Europa e Ásia.

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Essa última parte contém bastante indicação bibliográfica.

Como curiosidade, o termo “Maldição” utilizado pelo autor se refere à sua análise sobre o pós guerra, quando Stalin aproveitou-se do contexto sócio-econômico para estender sua zona de atuação, juntamente com práticas de censura e repressão. O autor também explica que essa maldição significa a dificuldade que os países ligados ao conjunto soviético tiveram para tentar melhorar sua economia, tudo por culpa única e exclusiva de Stalin, o que não deixa de ser uma opinião tendenciosa, que desperta muitos questionamentos.

Na mesma linha de raciocínio, Gellately denomina Stalinização ao estilo repressor de expansão soviética ao mesmo tempo em que censura os EUA, que, na sua visão, ficaram inertes frente à expansão comunista, mas, em contrapartida, ovaciona a interferência americana na Coreia e aceita que todo o quadro histórico do pós guerra auxiliou as ações stalinistas, tendo em vista a pressão que o povo americano fez para o retorno dos soldados à sua nação, enquanto a Grã-Bretanha encontrava-se quebrada economicamente.

Outra problemática encontrada no livro é a opinião pessoal do autor quanto ao caráter de Stalin. Ele não admite a possibilidade de uma psicopatia ou qualquer transtorno de personalidade, mas acredita que toda violência cometida era fruto da própria ideologia comunista, ou seja, foi fruto de como Stalin absorveu  e interpretou a doutrina Marxista, deixando subentendido que a doutrina marxista propaga a violência como forma de dominação. Essa percepção deixa de fazer sentido se utilizarmos a mesma premissa para a análise de todo o mal causado pelo nazismo de Hitler, um ditador nacionalista de extrema direita.

Em Teerã, Stalin soou como se confiasse em seus aliados e estivesse ávido por cooperação. Mas seu desprezo por eles não tinha limites. O histórico está repleto de exemplos, como um de março de 1944, quando falou para visitantes comunistas Iuguslavos. Disse-lhes que não se enganassem em relação às suas relações cordiais com Roosevelt e Churchill, por ele equiparados a batedores de carteira capitalistas. Aconselhou seus convidados a não  “amedrontarem” os aliados ocidentais, com isso querendo dizer “evitar qualquer coisa que pudesse alarmá-los a ponto de pensarem que uma revolução se processava na Iuguslávia ou uma tentativa de controle comunista”. as atitudes e ambições políticas de Stalin eram imutáveis, a despeito de quaisquer gestos de amizade que ele pudesse fazer. (pág. 100)

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Eu julguei muito arriscada a leitura dele em diversos ângulos. Deixo aqui bem claro que não tenho qualquer apego, admiração, empatia, inclinação ou atração pela memória de Stalin, mas essa interpretação de Gellately sobre as responsabilidades prioritárias da URSS pela Guerra Fria me parece uma reprodução da historiografia conservadora dos anos 50, e sua posição claramente de direita compromete bastante confiabilidade da obra.

Se você se interessou por esse livro, mesmo que discorde das opiniões do autor, e deseja adquiri-lo para melhor confronto de ideias, pode comprar neste link pela Amazon, assim você ajuda o blog a crescer e não paga nada a mais por isso.

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Resenha do livro A Bagaceira, José Américo de Almeida.

Oi, pessoal! Tudo bem?

Hoje trago pra vocês uma indicação de livro  que tem uma história forte, triste, densa, sendo uma obra muito importante para a literatura nacional, porque abriu caminho para  Graciliano Ramos, Rachel de Queiroz, José Lins do Rego, dentre outros.

Detalhes:

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  • Capa comum: 280 páginas
  • Editora: José Olympio (21 de janeiro de 2017)
  • Idioma: Português
  • ISBN-13: 978-8503012997
  • Dimensões do produto: 22,6 x 15 x 2 cm
  • Peso do produto: 522

Valentim é um retirante da seca que sai da fazenda onde trabalhava com sua filha Soledade e seu filho adotivo Pirunga, e os três acabam pedindo emprego na fazenda Marzagão, de propriedade de Dagoberto, um  senhor de engenho viúvo que tem um filho estudante de Direito, Lúcio, que, no começo da história, está passando férias com seu pai na fazenda. Logo Lúcio e Soledade começam uma relação de amizade onde ambos tem interesses mais profundos, mas nenhum dos dois consegue tomar a iniciativa e falar de forma clara sobre seus sentimentos e anseios, o que dificulta muito o desenvolvimento da relação.

Soledade é retratada como a menina-mulher que chama a atenção dos homens por sua beleza e usa disso para brincar com todos (e esse foi um ponto que me incomodou bastante, mas dentro do contexto social da época é perfeitamente compreensível que existisse essa visão da mulher fatal e irresistível que levava os homens a cometerem loucuras por seu amor). Lúcio é o clichè do bom moço do sertão que sai da fazenda para estudar e retorna nas férias para aprender a lidar com os negócios do pai.

Assim começa um verdadeiro vai – não vai entre Soledade e Lúcio, que não chegam a consumar o seu amor porque o rapaz tem medo de desonrar a moça e não ser capaz de assumir o romance, o que deixa Soledade bastante ansiosa e impaciente, pois ela quer ter um relacionamento estável. Assim, Lúcio volta para a cidade e  deixa Soledade ainda mais angustiada.

Acontece que boatos sobre Soledade fazem com que Valentim desconfie de que alguém está seduzindo sua filha e, ao confrontá-la, ela acaba por acusar uma pessoa da fazenda que se torna vítima de Valentim. Este vai preso e pede a Pirunga que tome conta de sua filha. Lúcio, que tinha voltado para a faculdade, retorna para a fazenda e anuncia ao pai sua paixão pela moça, mas é surpreendido por revelações que o farão desistir de seu amor.

Pirunga descobre quem é o verdadeiro autor da desonra de Soledade e, num ato de vingança por ciúmes, o mata, e também atenta contra a integridade física de sua irmã de criação.

Os anos passam e Lúcio retorna para a fazenda, casa-se, tem seus filhos e um final emocionante traz um desfecho impactante para o leitor.

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Minhas impressões

É um livro difícil, com um ar teatral no qual o autor não usa de muitas descrições, parece que as personagens tomam vida própria e estão ali “vivendo suas vidas”, e  o autor está apenas contando fragmentos de uma história que não tem motivo para ser profunda, visto que é a mesma que se repete em ciclos no interior de muitas outras fazendas do sertão nordestino.

O estudante comparou a mentalidade do engenho, resíduos da escravaria, os estigmas da senzala, esses costumes estragados com a pureza do sertão.

E sentia que, com o andar do tempo, se estupidificava nesse meio execrável.

Enquanto o narrador em terceira pessoa usa uma linguagem rebuscada,  a fala das personagens enche o livro de regionalismo que requerem um glossário para auxiliar na compreensão do texto, que acompanha a obra ao final do livro.

– Eu estava canso de avisar. mas o freguês tinha nó pelas costas, era cheio de noves fora. Aí, dei de garra do quiri. O bruto entesou. Aguento a primeira pilorada – lepo! – no alto da sinagoga.  Arrochei-lhe outra chumbergada. aí, ele negou o corpo, apragatou-se, ficou uma moqueca. E veio feito em riba de mim. Arta! danado! Caiu ciscando, ficou celé!… Foi pancada de morte e paixão. Vá comer, terra!… Fugiu na sombra e levou um tempão amocambado.

A escrita também está impregnada de lirismo, que pode confundir um pouco o leitor, mas é tão poética e bela que vale o esforço:

Não! a mulher que ama é a que diz menos, porque é a que mente mais.

Só a mulher que sofre diz tudo num grito de dor.

A minha maior dificuldade foi conseguir deduzir o que o narrador estava contando porque a escrita se desenvolve de forma a não deixar claro os acontecimentos, e o leitor só descobre o que de fato aconteceu no capítulo seguinte, quando dá-se o resultado da cena anterior. Isso é uma característica da escrita do autor, que pode cansar um pouco, mas os fatos podem ser deduzíveis, então a leitura flui através das cenas entrecortadas.

Eu gostei bastante, para mim foi uma experiência de leitura diferente, muito interessante, e senti empatia com muitos personagens, conseguindo me colocar no lugar de cada um e entender o rumo da história, que é perfeitamente possível, dando um traço de realidade.

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Fica aí a minha dica fortíssima de livro nacional, que não é muito conhecido, de um autor um pouco esquecido, mas que merece toda a nossa atenção e carinho.

Um beijão em todo mundo, até a próxima!

Graciliano Ramos – Muros sociais e aberturas artísticas.

Sabe quando você termina de ler um livro mas continua “preso” na história, que é tão boa, tão instigante, que permanece ecoando na tua mente por muitos dias após a leitura? Então, as obras do mestre Graciliano Ramos costumam exercer esse poder sobre nós. Ano passado eu tive o meu primeiro contato com esse autor na leitura de São Bernardo, e essa foi uma história forte, intrigante, que me deixou ansiosa por aprofundamento, que me fez pensar em questões sociais, filosóficas e culturais, e eu não tive contato com nenhum texto de apoio para ajudar em meus questionamentos. É aí que entra esse livrinho aí da foto! Ele é pequeno, curtinho, e a gente acha que vai ler numa sentada, rapidinho…

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Não mesmo!

Muros Sociais e aberturas artísticas é uma coletânea de doze textos que tem o objetivo de pensar a obra de Graciliano Ramos com outras obras literárias do Brasil, Portugal e Cabo Verde, numa reflexão comparativa com estudos de sociologia, política e outras áreas do saber e das artes em geral, inclusive apontando a importância da obra do autor para as crianças. As análises trazidas no livro são curtinhas, mas profundas e muito relevantes para quem deseja um mergulho na mente do autor, com análise de personagens e ambientações, o que nos ajuda a pensar as histórias e questionar o que é ficção e o que existe de autobiográfico ou não.

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“O desnorteio e a alienação da personagem, que já não tem o controle do tempo e do espaço, ficam patentes com a confusão entre o tempo presente e o passado da memória” – sobre a angústia e solidão de Paulo Honório em São Bernardo, por Andrea Trench de Castro.

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Os autores da coletânea fazem parte de um grupo de pesquisa de estudos comparados das obras de Graciliano Ramos da USP e tem como organizador o professor e crítico literário Benjamim Abdala Jr., ou seja, é uma obra indispensável para colecionadores, estudiosos e curiosos.

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Minhas impressões: achei um livro bastante técnico que, para o leitor médio pode assustar de início, mas que agrada pelo conteúdo riquíssimo e usos comparativos com outras artes, o que ajuda na compreensão dos textos. Para estudantes de Letras é indispensável porque abre um leque de possibilidades de abordagens e estudos críticos. Não aconselho a leitura para quem não gosta de spoilers e ainda não leu os livros estudados nos ensaios. Para esses, a leitura dos textos deve ser feita após a leitura dos respectivos livros aos quais se referem, funcionando como verdadeiros textos de apoio. Para quem, como eu, não se preocupa com isso, é uma boa forma de começar a ler e se apaixonar por Graciliano Ramos.

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  • Capa comum: 336 páginas
  • Editora: Record (10 de março de 2017)
  • Idioma: Português
  • ISBN-10: 8501108251
  • ISBN-13: 978-8501108258
  • Dimensões do produto: 23 x 16 x 2 cm
  • Peso do produto: 440 g
  • Minha avaliação: 5/5