A Senhora de Wildfell Hall, Anne Brontë.

  • Capa comum: 504 páginas
  • Editora: Record (8 de maio de 2017)
  • Idioma: Português
  • ISBN-10: 8501080691
  • ISBN-13: 978-8501080691
  • Dimensões do produto: 22,6 x 15,2 x 2,8 cm
  • Peso do produto: 640 g

Filha mais nova da família Brontë, Anne era irmã de Emily Brontë, autora de O morro dos ventos uivantes, e de Charlotte Brontë, autora de Jane Eyre — livros clássicos e reeditados até hoje. Anne Brontë (1820-1849) desafia as convenções sociais do século XIX neste romance, A senhora de Wildfell Hall. A protagonista da obra quebra os paradigmas de seu tempo como uma mulher forte e independente, que passa a comandar a própria vida. Ao chegar à propriedade de Wildfell Hall, a Sra. Helen Graham gera especulação e comentários por parte dos vizinhos. O jovem fazendeiro Gilbert Markham, por sua vez, desperta um grande interesse pela moça e, aos poucos, vai criando uma amizade com ela e com seu filho. Porém, os segredos do passado da suposta viúva e seu comportamento arredio impedem que o sentimento nutrido pelos dois se concretize, fazendo com que Gilbert tenha dúvidas sobre a conduta da moça. Quando a Sra. Graham permite que ele leia seu diário a fim de esclarecer os fantasmas do passado, o rapaz compreende os tormentos enfrentados por aquela mulher e as razões de suas atitudes. Ela narra sua história até então, desde a relação com um marido alcoólatra e de conduta abominável até a decisão de abandonar tudo em nome da proteção do filho.

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A senhora de Wildfell Hall é um romance epistolar escrito por Anne Brontë sob o pseudônimo de Acton Bell, publicado em 1848. O romance recebeu duras críticas por conta da descrição de suas personagens femininas, sempre mulheres com opiniões fortes e atitudes muito progressistas para a época. É considerado o primeiro romance feminista.

“Meu propósito ao escrever as páginas seguintes não foi apenas divertir o leitor; tampouco satisfazer meu próprio gosto ou ganhar as boas graças da imprensa ou do público: meu desejo era relatar a verdade, pois a verdade sempre comunica sua própria moral para quem é capaz de absorvê-la. Mas, como esse tesouro precioso com frequência se esconde no fundo de um poço, é preciso coragem para mergulhar em busca dele, principalmente porque é provável que quem o fizer vá despertar mais desdém e desaprovação pela lama e água onde ousou se misturar do que gratidão pela joia que obteve; pe possível comparar isso com a situação de uma mulher que se prontifica a limpar os aposentos de um homem solteiro e descuidado, ouvindo mais reclamações pela poeira que levantou do que elogios pela limpeza que fez.”.

Houve bastante especulação, na época, sobre a autoria do romance, ao que respondeu Anne:

“Irei interpretar essa dedução como um elogio à boa delineação de meus personagens femininos; e, embora não possa deixar de atribuir boa parte da severidade de meus censores a essa suspeita, não farei esforços para refutá-la, pois, para mim, se o livro é bom, o sexo de seu autor não é significativo.”

Mas vamos à história.

Gilbert Markham é um jovem apaixonado que escreve cartas ao amigo Halford, contando a história de Helen Graham, uma mulher misteriosa que se muda para a mansão abandonada Wildfell Hall com seu filho Arthur e sua criada Rachel, vivendo reclusa e despertando curiosidade na vizinhança por conta de suas fortes opiniões e todo mistério que a cerca. Todos acreditam que Helen é uma viúva solitária, mas sua forte amizade com Lawrence causa um falatório na comunidade, que a julga vulgar para os padrões da época. Gilbert insiste em cortejar a jovem, que se esquiva de suas intenções e resolve lhe contar sua história, entregando-lhe seu diário que contém relatos sobre o relacionamento abusivo que sofreu por seu marido, o odiável Arthur Huntingdon .

Desta forma, temos duas vozes no romance: a de Gilbert, que escreve cartas a Halford confessando seus sentimentos e contando a história de Helen sob seu ponto de vista, e a voz de Helen por meio de seu diário que começou a ser escrito cinco anos antes.

Gostei muito da forma como as personagens femininas são retratadas, mas confesso que não consegui sentir empatia por Helen. Não estou dizendo que ela mereceu os abusos que sofreu, longe disto, mas a personagem é irritantemente enfadonha, uma fanática religiosa rabugenta que não causa grande empatia no leitor. Gilbert, por sua vez, é inocente e muito bondoso, mas seu orgulho e covardia chegam a irritar. Contudo, são dois personagens perfeitamente verossímeis, e aí está a perspicácia da autora, em trazer um retrato tão fiel da sociedade da época que se comunica facilmente com nossos dias atuais.

O que mais mexeu comigo, sem dúvida, foi o relato minucioso sobre a personalidade de Arthur Huntingdon, um narcisista perverso que, após conquistar o coração de Helen e levá-la ao altar, passa a maltratá-la, desprezá-la e torturá-la com seus vícios e sua crueldade, levando-a à depressão e ao desespero, ao ponto de fugir com seu filho para protegê-lo dos abusos do pai. É, sem dúvida, uma figura detestável que merecia um destino muito pior ao que Anne lhe deu.

A história é muito interessante sob o ponto de vista dos relatos sobre a vida cotidiana, das relações íntimas e familiares, o que nos prende facilmente, mas aconselho a não ler com pressa porque é riquíssima em detalhes e merece um verdadeiro mergulho e toda a atenção do leitor.

Pegue um chá, sente-se confortavelmente e aprecia a vista. Boa viagem!

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A astúcia cria o mundo, Lewis Hyde.

  • Capa comum: 546 páginas
  • Editora: Civilização Brasileira (31 de março de 2017)
  • Idioma: Português
  • ISBN-10: 8520009433
  • ISBN-13: 978-8520009437
  • Dimensões do produto: 22,4 x 15,4 x 3,6 cm
  • Peso do produto: 621 g

Sinopse da Editora:

Neste livro fascinante, Lewis Hyde explora os velhos mitos que afirmam ter sido o trickster – a figura mitológica que oscila entre o herói e o galhofeiro – quem fez deste mundo o que ele é. Primeiro, revisita as antigas histórias – Hermes na Grécia, Exu na África Ocidental, Krishna na Índia, Coiote na América do Norte, entre outros – e depois as compara à vida e às obras de criadores mais recentes, como Pablo Picasso, Michel Duchamp e Allen Ginsberg. Hyde argumenta que nosso mundo – complexo, ambíguo, belo e sujo – foi uma criação ainda não concluída do trickster. Notável em sua erudição, fluente e dinâmico em seu estilo, A astúcia cria o mundo figura entre as grandes obras da moderna crítica cultural.

Nesta obra, o autor nos traz um aprofundamento em seu significado da palavra “astúcia”, que não é tão negativo assim, de acordo com os exemplos tirados dos estudos mitológicos nos quais os trickters assumem uma figura de grande importância no desenvolvimento da humanidade.

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É difícil classificar a astúcia porque dependendo do contexto pode ser atribuída como qualidade ou como defeito. E é esse o ponto tratado neste livro de Lewis Hyde que mostra esse adjetivo classificado entre o bem e o mal, caracterizado pelos tricksters, que ficam no meio termo entre o vilão e o herói.

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O foco central do livro é descobrir como funciona a criatividade de artistas como Picasso, Marcel Duchamp, John Cage, Allen Ginsberg, Frederick Douglass, dentre outros, sem atribuir a eles o adjetivo de trickster, mas apenas mosotrar que “há momentos em que o exercício da arte e esse mito coincidem”. O autor frisa, também, que o trickster não é um ladrão banal, nem um mentiroso contumaz. Para ele, políticos desonestos não são tricksters porque estes pertencem à periferia, e aqueles ao centro e quando o trickster ganha poder, deixa de ser trickster.

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O trickster, na visão do autor, utiliza da trapaça para perturbar a ordem pré-estabelecida e elevar o mundo a outro nível. Portanto, o trickster tem um propósito elevado, e utiliza como exemplo a obra de Pablo Picasso, que levou o mundo a sério, depois o desfez e o reconstruiu com uma nova forma.

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O livro nos ajuda a refletir sobre os acontecimentos cotidianos e sobre a atuação de personagens inexpressivos que adquirem prestígio e reconhecimento em pouco tempo. Apesar de o assunto parecer um pouco complicado, o autor tem uma linguagem fácil que nos permite acompanhar seu raciocínio de forma bastante fluída e prazerosa. É uma obra excelente, que transita entre a filosofia e a história com maestria, fazendo com que o leitor leigo sinta-se confortável com a forma simples e ao mesmo tempo profunda com que o autor aborda o tema.

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Lewis Hyde é professor de escrita do Kenyon College e gosta de se definir como “poeta, tradutor e acadêmico freelancer”.

A Grande Fome de Mao, Frank Dikötter.

  • Capa comum: 532 páginas
  • Editora: Record (31 de março de 2017)
  • Idioma: Português
  • ISBN-13: 978-8501401618
  • Dimensões do produto: 22,8 x 15,6 x 2,6 cm
  • Peso do produto: 581 g

Sinopse da Editora:

Entre 1958 e 1962, a China tornou-se um inferno. Mao Tsé-tung jogou o país em um delírio com o Grande Salto Adiante, uma tentativa de alcançar e superar economicamente a Grã-Bretanha em menos de quinze anos. O experimento terminou na maior catástrofe que a China já viu, destruindo dezenas de milhões de vidas. Com riqueza de detalhes, Frank Dikötter expõe um período da história chinesa nunca antes completamente enfrentado. Mostra que, ao invés de desenvolver o país para se equiparar às superpotências mundiais, comprovando assim o poder do comunismo — como Mao imaginara —, o Grande Salto Adiante na verdade foi um passo gigante e catastrófico na direção oposta. O país virou palco de um dos assassinatos em massa mais cruéis de todos os tempos: pelo menos 45 milhões de pessoas morreram de exaustão, fome ou vítimas de abusos mortais das autoridades. Foi também a maior demolição de imóveis da história humana, já que quase um terço das residências foram postas abaixo, sendo a terra revirada na busca incessante por aço e outros recursos industriais. Descortinando as maquinações cruéis nos corredores do poder e o cotidiano da população comum, A grande fome de Mao dá voz aos mortos e esquecidos. Com pesquisa meticulosa e um texto brilhante, este relato inédito é uma reformulação fundamental da história da República Popular da China.

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A grande Fome de Mao mostra como a China liderada por Mao Tsé-Tung mergulhou numa crise de fome que matou aproximadamente 45 milhões de pessoas entre os anos de 1958 e 1962.

O autor Frank Dikotter teve acesso a documentos inéditos que antes só eram acessíveis a membros do partido comunista, e nos conta em detalhes sobre a política do Grande Salto Adiante instituída por Mao, que fantasiou uma competição com a união Soviética pela liderança do mundo comunista. Nessa louca corrida rumo ao poder, os camponeses foram forçados a trabalhar em terras coletivas (pertencentes ao Estado) para alimentar as cidades e prover bens para exportação e, com isso, sua própria sobrevivência ficava em último plano, o que acarretou em uma enorme quantidade de alimentos vendidos para promover a importação de equipamentos industriais e militares.

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Os relatos mais fortes sobre as mortes incluem, além da maioria por fome, mortes por acidentes, doenças, violência e por canibalismo.

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Nesse cenário de horror, a violência tornou-se uma ferramente de controle, utilizada de maneira sistemática e habitual contra qualquer um que ousasse protestar, furtar ou roubar comida, o que era muito rotineiro porque as pessoas trabalhavam de forma exaustiva e morriam de fome, frio e doenças.Mutilações eram formas frequentes de punição: cabelos eram arrancados, orelhas, narizes e testículos eram cortados, solas dos pés queimadas e pimentas ardidas colocadas dentro das narinas. Os aldeões sofriam não só com a fome, mas toda sorte de tortura lhes eram aplicadas por qualquer ato de indisciplina.

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Eu gostei do livro porque mostra detalhadamente toda a causa da crise no período, mas a forma densa dos relatos contém muitos dados técnicos sobre economia e política interna, O que requer bastante atenção e interesse por parte do leitor. Com certeza é um livro que vai permanecer na estante para ser usado como fonte de consulta.

Frank Dikotter
Frank Dikotter nasceu na Holanda, em 1961 e se formou em história e Russo pela Universidade de Genebra. Após morar dois anos na República Popular da Chinam mudou-se para Londres. Em 1990, obteve PhD em história pela Escola de Estudos Orientais e Africanos da Universidade de Londres, onde posteriormente foi professor de História moderna da China. Desde 2006, é professor catedrático de Humanidades na Universidade de Hong Kong. Pioneiro no uso de fontes do arquivo chinês, publicou mais de dez livros que mudaram a visão dos historiadores sobre a China moderna.

Parceria: Grupo Editorial Record 

Para quem não acompanhou meu ataque de alegria na semana retrasada  lá no stories do instagram (se você ainda não me segue no @letrasextraordinarias está perdendo um monte de dica legal), aqui vai a novidade: agora o IG Letras Extraordinárias é parceiro do Grupo Editorial Record, e eu vou trazer essa parceria para o blog.

A partir de agora vamos ter mais conteúdo,  e mais indicações literárias para vocês.

Fiquem ligados que deve rolar sorteio também. 🤗